Você realmente conhece a pessoa com quem vive?

É curioso como podemos passar anos ao lado de alguém sem realmente enxergá-lo.
Conhecemos seus hábitos, suas manias, seus gostos, suas histórias. Sabemos o que o irrita, o que o agrada e até conseguimos antecipar suas reações. Compartilhamos a casa, a cama, os problemas, as conquistas e, muitas vezes, uma vida inteira.

Mas será que tudo isso significa conhecer alguém intimamente?
Conhecer a história de alguém, conviver com essa pessoa, não é o mesmo que conhecer sua experiência emocional.
Quando nos relacionamos, construímos uma imagem do outro a partir daquilo que percebemos, mas também de nossas próprias experiências, expectativas e desejos. E, com o passar do tempo, essa imagem pode se tornar tão familiar que começamos a acreditar que sabemos exatamente quem está ao nosso lado.
“Eu te conheço muito bem! Sei por que você fez isso!”
Quem nunca ouviu ou disse algo parecido?
O problema é que, quando temos tanta certeza sobre quem o outro é, podemos perder a curiosidade por aquilo que ele ainda tem a nos revelar.
E talvez seja justamente quando acreditamos conhecer alguém completamente que começamos a nos distanciar de sua intimidade.
A psicanálise nos apresenta uma ideia interessante: existe algo no outro que jamais conseguiremos conhecer inteiramente. Cada pessoa possui um mundo interior complexo, atravessado por experiências conscientes e inconscientes, muitas vezes desconhecidas até para ela mesma.
Se nem sempre compreendemos nossos próprios sentimentos, como poderíamos compreender completamente os de outra pessoa?
Essa impossibilidade pode ser frustrante, especialmente quando desejamos ser compreendidos sem precisar explicar tudo. Mas também pode ser aquilo que mantém viva a possibilidade de continuarmos nos descobrindo ao longo da vida.
A curiosidade pode ser uma das forças que mantêm vivo o interesse pelo outro. Mas não aquela curiosidade invasiva, que leva alguém a vasculhar o celular do parceiro em busca de segredos ou mentiras, confundindo o acesso à sua privacidade com o conhecimento de sua intimidade.
Conhecer o outro é da ordem do mistério da experiência emocional: sentir e ser afetado pelo que o outro sente, sem uma compreensão imediata do que está se passando.
A intimidade não se constrói apenas com a convivência e o acúmulo de informações. Ela depende também da disponibilidade para entrar em contato com o mundo emocional do outro, sem exigir que ele corresponda àquilo que desejamos que seja, e sem saber antecipadamente o que essa descoberta poderá provocar em ambos.
Exige alguma disposição para sermos afetados por aquilo que o outro nos comunica, inclusive emocionalmente, em vez de apenas interpretá-lo a partir do que já sabemos.
Isso não é nada fácil, nem confortável!
Afinal, encontrar o outro em sua diferença pode nos colocar diante de sentimentos que desconhecíamos, de limites que preferíamos não reconhecer e de experiências que não conseguimos compreender imediatamente.
Trata-se de um trabalho psíquico sofisticado, que nem sempre um casal consegue realizar sozinho.
A psicoterapia psicanalítica de casal pode oferecer um espaço para esse trabalho, ajudando os parceiros a reconhecer aquilo que acontece entre eles e a descobrir novas possibilidades de encontro. Desde que ambos estejam dispostos a se surpreender com aquilo que ainda não conhecem — no outro, em si mesmos e na relação que construíram.

