O vazio emocional e a dificuldade de sentir
- Raquel Mazo

- 23 de jun.
- 1 min de leitura
Outro dia, ouvi uma pessoa falando sobre o fim de um relacionamento de muitos anos. Era o único relacionamento da vida dela.
E ela disse: “Não vou ficar chorando por isso.”
Me chamou atenção a necessidade de eliminar aquela emoção, um afeto muito pertinente ao momento do luto, que é a dor da despedida.
Porém, eliminar a dor para não ser afetado por ela, é justamente o que cria o estado de vazio, de falta de sentido na vida.
Esse estado de (des)afetação tem se tornado cada vez mais comum. Pessoas que seguem funcionando, trabalhando, conversando, cumprindo tarefas… mas estão emocionalmente anestesiadas. Como se a vida já não atravessasse mais.

Não por acaso, Arnaldo Antunes escreveu uma música inteira sobre isso, onde diz: “Socorro / Não estou sentindo nada / Nem medo, nem calor, nem fogo / Não vai dar mais pra chorar / nem pra rir.”
Nem sempre a dificuldade de sentir nasce de falta de sensibilidade. Muitas vezes acontece justamente o contrário.
Quando certas dores, frustrações e perturbações emocionais parecem intensas demais para serem suportadas, a mente encontra formas de proteção. Uma delas é reduzir a intensidade do sentir.
O problema é que, quando alguém anestesia a dor, acaba anestesiando também o amor, o encantamento, a presença e a capacidade de se sentir vivo.
Talvez por isso exista hoje tanta gente funcionando normalmente, mas emocionalmente distante da própria vida.
E talvez a cura não comece aprendendo a “controlar emoções”, mas desenvolvendo, aos poucos, capacidade psíquica para voltar a suportar o sentir.

PSICOTERAPEUTA
Sou Raquel Mazo, psicóloga CRP 06/112414, mestra em psicologia, especialista em psicologia clínica e pós-graduanda em psicanálise vincular.
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