Como se reconectar depois de tanto tempo juntos?
- Raquel Mazo

- 19 de dez. de 2023
- 2 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Com o passar do tempo, é comum que os casais sintam que algo mudou. A convivência continua, a rotina se mantém… mas a sensação de conexão já não é a mesma.
Muitas vezes, surge uma pergunta silenciosa: como voltar a se encontrar dentro da relação?
Quando se vive com alguém há muito tempo, cria-se a sensação de que o outro já é conhecido. Sabemos como reage, o que pensa, o que vai dizer. Mas é justamente aí que algo importante pode se perder. Passamos a reconhecer o outro, em vez de realmente encontrá-lo.
O filósofo Gilles Deleuze propõe uma ideia interessante: o reconhecimento é o oposto do encontro.
Reconhecer é olhar para o que já sabemos. Encontrar envolve algo diferente, algo novo, inesperado, que ainda não tem nome.
No início de um relacionamento, o encontro está muito presente. Há curiosidade, descoberta, surpresa. Com o tempo, porém, a relação pode se tornar mais previsível e, com isso, a possibilidade de encontro vai sendo sufocada pela repetição.

Essa ideia aparece de forma provocativa na peça O Cantor Careca, de Eugène Ionesco. Nela, um casal conversa como se estivesse se conhecendo pela primeira vez. Aos poucos, descobrem que vieram da mesma cidade, que viajaram juntos, que moram no mesmo endereço… até perceberem que são, na verdade, casados.
Mesmo assim, há um estranhamento. Como se, apesar de compartilharem a vida, não se reconhecessem de fato.
Essa cena absurda revela algo muito humano:é possível viver ao lado de alguém e, ainda assim, deixar de encontrá-lo.
A repetição do cotidiano, a ideia de que “já conhecemos” o outro, pode nos tornar cegos para o que ainda existe de novo e vivo na relação. E, aos poucos, a conexão vai se enfraquecendo.
Talvez a possibilidade de reencontro não esteja em “voltar a ser como antes”, mas em algo mais sutil e mais difícil: abrir mão da certeza de que já sabemos quem é o outro. Permitir-se estranhar, escutar de novo, olhar com curiosidade. Em outras palavras, permitir-se não saber.
Na psicoterapia de casal, esse movimento aparece com frequência. Mesmo em relações longas, é possível redescobrir aspectos do outro que estavam encobertos pela rotina, pelas expectativas ou pelas certezas.
É nesse espaço entre o conhecido e o desconhecido, que novos encontros podem acontecer. E, com eles, novas formas de conexão.

PSICOTERAPEUTA DE CASAL
Sou Raquel Mazo, psicóloga CRP 06/112414, mestra em psicologia, especialista em psicologia clínica e pós-graduanda em psicanálise vincular.
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