Você realmente enxerga a pessoa que está com você?
- Raquel Mazo

- 20 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 22 de mai.
Você já notou como nossas experiências passadas influenciam nossa percepção?
Se você esteve em uma cidade e sofreu um assalto, provavelmente terá a impressão de que o local é perigoso e pode não querer retornar. Por outro lado, alguém que nunca passou por essa experiência pode ter uma percepção totalmente diferente.
A realidade é complexa e nossa percepção depende dos aspectos que escolhemos observar. Incapazes de controlar tudo, criamos mapas internos para nos proteger de imprevistos.
Nos relacionamentos, esse olhar marcado pelas experiências passadas acaba por distorcer e, ao longo da convivência, vai criando convicções sobre quem o outro “é”, e essas ideias tendem a se fixar, produzindo repetições indesejadas.
"Ele sempre esquece de tirar o lixo”, “Ela nunca me escuta”, “Ele é sempre frio”, “Ela é sempre crítica”. Essas afirmações são convicções que, por serem absolutas, impedem que o parceiro seja visto em sua complexidade. O olhar fica viciado, e tudo o que foge ao padrão esperado, passa despercebido.
Se fosse apenas uma questão de percepção, já seria um desafio. Mas há um ponto ainda mais delicado: o olhar viciado também molda o comportamento do outro.
Inconscientemente, o parceiro passa a agir como aquilo que já é esperado dele. Afinal, se a mudança não é percebida, com o tempo ele pode desistir de tentar fazer diferente.
A música abaixo ilustra exatamente esse movimento: quando um ato renovado é acolhido com surpresa e abertura, algo se transforma.
Um dia ele chegou tão diferente Do seu jeito de sempre chegar Olhou-a de um jeito muito mais quente Do que sempre costumava olhar E não maldisse a vida Tanto quanto era seu jeito de sempre falar E nem deixou-a só num canto Pra seu grande espanto convidou-a pra rodar Então, ela se fez bonita Como há muito tempo não queria ousar Com seu vestido decotado Cheirando a guardado de tanto esperar Depois o dois deram-se os braços Como há muito tempo não se usava dar E cheios de ternura e graça Foram para a praça e começaram a se abraçar E ali dançaram tanta dança Que a vizinhança toda despertou E foi tanta felicidade Que toda cidade se iluminou E foram tantos beijos loucos Tantos gritos roucos como não se ouvia mais Que o mundo compreendeu E o dia amanheceu em paz (Valsinha - composição de Francisco Buarque de Hollanda / Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes

A renovação do olhar é o que possibilita que a relação volte a respirar. Quando nos permitimos observar o parceiro com outros olhos, abrimos espaço para perceber pequenas exceções, nuances, tentativas. E esse deslocamento discreto, porém profundo, pode mudar toda a dinâmica do casal.
Na terapia de casal, uma das tarefas centrais é identificar as convicções que foram se instalando silenciosamente em cada um. Elas viciam o olhar, engessam o vínculo e mantêm a relação presa em comportamentos que machucam e que ambos acreditam que “nunca vão mudar”.
Quando o casal começa a enxergar essas lentes e compreender como elas operam, surge a possibilidade de um encontro novo. E, muitas vezes, é a partir desse novo olhar que a relação encontra caminhos que antes pareciam impossíveis.

PSICOTERAPEUTA DE CASAL
Sou Raquel Mazo, psicóloga CRP 06/112414, mestra em psicologia, especialista em psicologia clínica e pós-graduanda em psicanálise vincular.
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