Na psicoterapia de casal, a briga mais recente revela algo maior
- Raquel Mazo

- há 3 dias
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Muitos casais chegam à terapia acreditando que o principal problema da relação é a dificuldade de comunicação.
Querem resolver discussões específicas, diminuir conflitos, encontrar formas melhores de conversar ou compreender por que continuam presos aos mesmos desentendimentos.
E, de fato, a comunicação costuma estar bastante desgastada quando um casal procura ajuda.
Mas, ao longo do processo vai surgindo algo importante: a última briga quase nunca é apenas sobre a última briga.
Porque, em geral, existem dinâmicas emocionais mais profundas organizando silenciosamente a relação há muito tempo.
A forma como cada um reage ao conflito, lida com frustração, busca proximidade, se afasta emocionalmente, suporta diferenças, vive dependência, necessidade de controle, medo de abandono ou dificuldade de intimidade não surge do nada dentro do relacionamento.
Tudo isso vai se construindo ao longo da vida emocional de cada parceiro e passa a atuar dentro do vínculo. Por isso, a terapia de casal não trabalha apenas com aquilo que é dito explicitamente durante as sessões.
Muitas vezes, aspectos importantes aparecem justamente naquilo que o casal repete sem perceber.
Nos silêncios. Nas interrupções. Nas acusações recorrentes. Na dificuldade de escutar. Nas tentativas de controle. Nas formas de defesa que surgem quando alguém se sente emocionalmente ameaçado.
Aos poucos, o casal começa a observar que alguns conflitos aparentemente cotidianos carregam camadas emocionais muito mais complexas. Porque certas discussões não acontecem apenas por causa de tarefas domésticas, dinheiro, ciúmes, sexo, filhos ou rotina.
Muitas vezes, elas mobilizam sentimentos antigos de rejeição, insuficiência, abandono, invisibilidade, invasão emocional ou medo de perder o lugar afetivo dentro da relação.
E talvez uma das partes mais difíceis — e mais transformadoras — da terapia de casal seja justamente perceber que ambos participam da construção da dinâmica atual do vínculo.

Isso não significa procurar culpados ou dividir responsabilidades de forma simplista. Mas compreender que uma relação é construída continuamente pelas formas como duas pessoas se encontram, se afastam, se defendem, se desejam, se frustram e tentam existir emocionalmente juntas.
Por isso, o trabalho não se baseia em fórmulas rápidas ou orientações superficiais de comunicação. A proposta é ampliar a capacidade do casal de perceber aquilo que organiza emocionalmente a relação.
Porque, às vezes, o casal já aprendeu muitas técnicas para conversar melhor. Mas ainda não conseguiu compreender profundamente por que continua sofrendo da mesma maneira.
Na psicanálise vincular, abordagem que orienta meu trabalho, o relacionamento é compreendido como um espaço emocional compartilhado, que precisa ser pensado para além de cada indivíduo isoladamente.
E talvez seja justamente isso que torne a terapia de casal tão diferente do que muitas pessoas imaginam.
Ela não busca apenas adaptar superficialmente duas pessoas a uma convivência mais tolerável. Busca ampliar as possibilidades de encontro emocional verdadeiro dentro da relação.

PSICOTERAPEUTA DE CASAL
Sou Raquel Mazo, psicóloga CRP 06/112414, mestra em psicologia, especialista em psicologia clínica e pós-graduanda em psicanálise vincular.
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